Hoje resolveu andar. O dia já estava caindo e a noite fria se aproximava. No jornal estava dizendo que esta seria a noite mais fria do ano.
Caminhava pela ruelas úmidas e a serração já começava a baixar. Realmente estava frio, era a primeira vez que via sua própria respiração, aquilo fez com que se sentisse mais viva.
Não havia ninguém nas ruas, todos já estavam em suas camas devidamente aquecidos e acolhidos. Mas para ela, caminhar era a melhor opção, sua cama já não era acolhedora havia tempos. Insistia, em toda noite, expulsá-la sem piedade. O travesseiro sussurrava em seu ouvido, tirava seu sono e sua paz.
Queria ir para o lugar mais frio, para o ponto mais alto da mais alta montanha, para que a noite gélida congelasse seus pensamentos, que os fizessem calar-se para sempre.
Caminhou para o mar, não era o topo de uma montanha, mas era tão frio quanto. As ondas martelavam no paredão e explodiam contra ele, cortando o silêncio daquela noite. O vento era frio e seu nariz e dedos começaram a congelar, pensou: “quem sabe mais um pouco, meus pensamentos congelam também”. Em vão. Caminhou pelo calçadão e voltou às ruelas solitárias.
A serração já estava bem forte e olhava para o chão, para enxergar o caminho. Seus passos eram os únicos, ecoavam fortemente no vazio daquela noite, no vazio que ela se tornara.
Voltou pra casa, esperou mais alguns minutos no portão, ainda com a última gota de esperança de que aquela “noite mais fria do ano” fosse capaz de congelar aqueles pensamentos aflitos e pudesse, finalmente, tornar a sua cama o local outrora confortável. Novamente, em vão, pensou: “definitivamente, esta não é a noite mais fria do ano”.
Por fim, abriu a porta para o calor da sua casa e de volta a confusão dos seus pensamentos.